Antes da Conclusão
Agora é o meio-dia. O ponto mais alto do dia (o horário de postagem não vale). Em duas horas estarei defendendo minha monografia de fim de curso e estou tranquilo, independente da avaliação da banca (claro que quero um 10 e também quero ser louvado pelos três homens sábios -e isso é a mais pura verdade- que convidei para a banca). O Comecinho dela é o seguinte:Rubem Alves foi muito lúcido quando afirmou que escrever é como espremer um furúnculo. Por vezes, é apenas um pontinho, que dá uma dor que mais parece com coceira, mas, quase sempre, o que temos é um pequeno tumor inchado cheio de pus e sangue pedindo para sair. Cabe a nós, que nos propomos a essa brincadeira ou desafio, termos coragem de espremê-lo, agüentando a dor e segurando o asco na garganta.
Tive sorte de ser apresentado a Rubem Alves em uma dessas madrugadas quentes de Fortaleza, onde não dormir é regra e a melancolia deixa o ambiente e nossa pele com cores levemente azuladas. Na madrugada em que fui apresentado a Rubem Alves por uma amiga semi-anjo, não havia alegria. Não havia nem mesmo eu, ou a presença do meu corpo, que estava em um estado de completo torpor. Eu era um fugitivo, sem saber do quê. Depois descobri que fugia do meu furúnculo, que pedia para ser transformado em palavra, antes que virasse parte de meu corpo.
Considero a comparação de Rubem Alves de que, o ato de escrever, é similar a esse tipo de tumor benigno devido ao alívio que se segue após um momento de medo das sensações, porém, talvez o que me inquietasse fosse algo pouco diferente.
Como monografia de conclusão de curso, este trabalho representa o fim de um ciclo breve de formação profissional. Porém, acima de tudo, é o resultado de dois anos de experiência e de construção pessoal de um ser humano. Uma tentativa fazer mais completo o que não pode ser.
Assumo que se não fosse uma monografia dentro dos preceitos científicos, mas um romance ou um conto, o que haveria a ser lido, em seguida, seria uma história em primeira pessoa, quase autobiográfica. Entretanto, mesmo se tratando de um escrito sobre algo que diz respeito não apenas a mim, mas ao saber da coletividade, não consegui e nem fiz questão de tornar o trabalho algo distante de minha pessoa. Ao contrário, desde a escolha do tema até a forma como está sendo apresentado, o que é possível perceber é o autor dentro da obra, assim como quem me conhece, de fato, verá a obra no autor. Explicando de um modo mais acadêmico, prefiro falar de história da filosofia.


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